Promotor Thales Tácito ‘abre o jogo’
Especial do Correio Sudoeste
Ele resolveu “quebrar o silêncio”. Conhecido como avesso às entrevistas, o promotor de justiça e promotor eleitoral Thales Tácito Pontes Luz de Pádua Cerqueira mostra suas convicções, comenta política local, estadual e nacional sem ofender pessoas, criticando apenas o ato – “o pecado e não o pecador”, como diz, e ainda desabafa: “deixemos que o eleitor de Guaxupé, nas próximas eleições, dê o seu recado no sentido de quem está no caminho certo”. Solicitando que o eleitor acompanhe e fiscalize a política local, estadual e nacional, termina dizendo: “Capa da Bíblia neles!”
Qual o motivo do sr. não falar com a imprensa?
Excelente pergunta. Em primeiro lugar, eu sempre falo com a imprensa. Vocês deste jornal, bem como a Folha do Povo e Jornal da Região, estão cadastrados em meu mailing e recebem, por escrito, informações públicas de ações realizadas, bem como auxílio no tocante à fiscalização etc. O que não faço é me promover na imprensa às custas de seres humanos. Não dou e nunca darei entrevistas na imprensa para servir de “trampolim” para interesses de ibope ou vendagem de jornais. Não irei afrontar minha crença para satisfazer
o ego de leitores que gostam de escândalos e brigas pessoais. Jamais ofendi o prefeito ou a pessoa de vereadores ou juizes ou advogados. Tenho por todos um imenso respeito, como sinto respeitado por esta mesma comunidade. E não é só. Um agente do Estado para ser respeitado, deve dar o exemplo, vale dizer, deve respeitar os semelhantes e ter uma vida regrada. Que imagem eu teria das pessoas que lido se não as respeitasse como seres humanos? Portanto, falar com a imprensa é algo sadio, mas ofender os semelhantes é doentio e evito tais intromissões. Por isto, sempre que percebo que algo possa ofender a imagem, encaminho para a Assessoria de Comunicação Social do MP, em BH, onde eles fornecem para a imprensa versão própria e eficaz, evitando qualquer tipo de problema. É um órgão maravilhoso que temos em BH, para assuntos que envolvem dignidade da pessoa ou problemas de índole político/improbidade.
O sr. é católico, por influência materna, seu pai é espírita. É admirado por evangélicos, diante de tantos pedidos de palestras. Diante desse quadro, onde o sr. penetra em praticamente todas as religiões, como vê a discussão que envolve o vereador Ari, no sentido deste poder ou não ler trecho bíblico?
Esse assunto é muito importante. A nossa Constituição é laica, vale dizer, permite a liberdade de todas as crenças. Mas por detrás disto, o que se esconde nas mentes hipócritas é a intolerância. Qual o motivo do meu sucesso entre católicos, espíritas, evangélicos, judeus etc., como você afirmou? Simplesmente uma palavra – tolerância. Tolero todos aqueles que têm credo distinto do meu e com o passar dos tempos passei da tolerância ao amor. Amo verdadeiramente meus irmãos evangélicos, espíritas e de outras religiões que sempre me ajudaram muito mais em obras do que os católicos da qual pertenço. Quando fui Promotor da Infância e Juventude (Patos de Minas, Cláudio, Divinópolis e Poços de Caldas) recebi muito mais apoio dos amigos de outros templos do que por vezes dos meus próprios pares. E sabe por quê? Porque descobri com os anos que o realmente importante são as “obras”. Antigamente achava que a frase “dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és” era uma frase perfeita. Depois, com as experiências da vida como Promotor, cheguei a compreender que o importante não são os discursos, mas as obras e a frase perfeita passou a ser: “dize-me o que fazes e dir-te-ei com quem andas”. Não foi à toa que Jesus disse em claro e bom tom: “A cada um, por suas obras”.
Desde o tempo de Cristo já era antiga a hipocrisia farisaica. Declarando-se homens de fé e buscando a hegemonia nos círculos religiosos e sociais, os fariseus eram conhecidos por exibirem insuportável orgulho e repugnante vaidade. Assim, pervertidos pelo intelectualismo de superfície, colocavam acima de tudo o rigorismo aparente. Sabiam caluniar os adversários e bajular os poderosos. Exigiam os primeiros lugares nas sinagogas e destaque nas assembleias mais simples. Passagens bíblicas mostram a crueldade dos fariseus, questionando a Jesus se devia ou não pagar tributos a César; buscando na fraqueza de Judas a traição do Messias, enganando-o com falsas promessas; e nem respeitando a hora angustiada e terrível da morte de Jesus, chegaram a cuspir-lhe o rosto e questioná-lo: – “Se tu és Rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo e desce da cruz”.
Nem mesmo vendo uma vítima necessitando de socorro, o fariseu ou o sacerdote foram humanos em socorrer-lhe, cabendo ao bom samaritano.
E porque alonguei na resposta: ora, dizer que a Constituição é laica para impedir que um vereador leia a Bíblia é uma forma muito bonita de esconder a INTOLERÂNCIA religiosa. Para respeitar a sua religião é necessário TOLERAR a religião alheia. Como católico tenho em meu Gabinete uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e ninguém pediu para tirá-la dali. Respeito os símbolos de todos, desde o evangélico (a bíblia sempre as mãos – acho lindo isso), espírita, judeu, muçulmano etc. E ao respeitá-los, eles me respeitam.
Da mesma forma que fazem com o vereador Ari, na Itália se proíbe o uso de imagens católicas – crucifixos nas escolas. No Brasil alguns tribunais determinam a retirada de Jesus detrás de salas de audiências ou crucifixos. Se isto for virar prática comum, será um passo para discriminar símbolos de evangélicos, de judeus, de mulheres, de negros, enfim, ao disfarçar nos símbolos, o preconceito é realmente contra a própria pessoa.
Portanto, impedir um vereador de ler trechos da Bíblia, como retirar símbolos de religiões, para mim é prática de intolerância disfarçada de outro nome (eufemismo). Ademais, que mal faria uma leitura dessas? Ora, quem não quiser ouvir, tampe os ouvidos (além do coração) ou se for transmitida pela TV, desligue o aparelho. É preciso praticar tolerância com os credos alheios, para que respeitem a sua própria crença, pois depois da prática constante da tolerância chegaremos em seguida no amor fraterno, enxergando nossos semelhantes de outras religiões não como nossos inimigos, mas como Jesus. Quem quiser encontrar Jesus é só olhar para os outros com olhos de Jesus. É fácil encontrá-lo!
O sr. entende que o problema de Guaxupé é partidário, leia-se, como se comenta nas ruas, culpa do PT ter vencido as eleições municipais? A polêmica do Carnaval reside neste comentário?
De forma alguma. O PT é apenas um partido, leia-se, pessoa jurídica de direito privado, do qual membros compõem seus quadros. Quem se torna responsável é o homem ou mulher por detrás do partido, ou seja, o gestor, no tocante ao gerenciamento e prioridade. Exemplo: entendo que o Carnaval é importante para o turismo. Mas não aceito que 500.000 possam ser gastos neste evento, quando muitas outras PRIORIDADES são visíveis, como saúde, por exemplo. Muito bem redigida foi a fala do professor Waldir, do PT, no Correio Sudoeste de 06 de março de 2010, onde bem coloca a questão da prioridade no universo da administração pública gerencial. Quanto ao Carnaval, já que muitos comentam, minha função é apenas técnica e não filosófica, ou seja, em que pese meus pensamentos sobre prioridade, minha função reside em analisar se houve ou não prejuízo aos cofres públicos no tocante a não especificação de licitações, uma vez que serviços globalizados provocam a “terceirização do serviço”, deixando mais caro, portanto, do que licitar serviços afins. Ademais, tenho que apurar quem foi o responsável por esta licitação, se a Comissão processante ou quem proveu recurso do vencedor, porque procuro sempre analisar quem realmente praticou o ato ao invés de generalizar a acusação. Enfim, é uma tarefa meticulosa e técnica, que pretendo contar com auxílio do Tribunal de Contas do Estado.
Agora, dizer que partido é culpado por má gestões de seus membros é surreal, mesmo porque vários partidos foram pegos com escândalos de financiamento nos últimos anos, por exemplo. Temos que reconhecer que os políticos não são nossos verdugos, temos ótimos quadros de políticos no PT, bem como no PSBD, DEM, PPS, PSOL, PMDB etc. Um exemplo claro de dinheiro público bem aplicado é para os pobres e necessitados de todas as sortes, pois quando o Presidente da República Lula voltou grande parte de sua política para as tormentosas questões sociais, a economia respondeu e chamou atenção de outros Países no mundo. Por isto sempre aprendi que “quem dá aos pobres, empresta a Deus”. Da mesma forma, partidos menores despontam com jovens promissores, trazendo o “arroubo da juventude” e o “idealismo cristão”. Mas o que se precisa ter em mente são obras, prioridade e gerenciamento. Acabar de vez com o financiamento privado, responsável por corrupções imensas no País e buscar a democracia participativa. Sem isso iremos “enxugar gelo” e ficar procurando “bodes expiatórios”, como se apenas um ou alguns fossem realmente os algozes da nação.
O sr. acredita que Guaxupé pode recuperar o tempo perdido e aproveitar a boa fase da economia?
Claro que sim. Sou um otimista nato, porque quem tem fé em Deus não se entrega e não tem medo. O que é a fé senão o fundamento da esperança. A fé é prospectiva, nos projeta. Acredito que os políticos locais irão sair da “cegueira da discórdia” (Mateus 20, 29-34) e encontrarem a tolerância das ideias. Percebendo como estava o clima tenso entre poderes, após grande oração e reflexão, solicitei uma audiência pública no dia 26 de fevereiro de 2010 no Fórum, para o Diretor do Foro, Exmo. Dr. João Batista, que prontamente cedeu o espaço como participou preocupado com a cidade. Executivo, Legislativo, Bispo, Presidente do Colégio de Evangélicos, COOXUPÉ, Delegado Regional e vários segmentos sociais participaram. E sentimos a vontade de todos de cooperar e mudar o rumo de Guaxupé para o diálogo. O Executivo se prontificou de imediato de trazer a Guarda Municipal, a Guarda Mirim, regulamentar por decretos questões como Conselho Municipal da Mulher e apresentar ao Legislativo projeto sobre autarquia de água e esgoto (para aprovação ou rejeição). O Legislativo, por seu Presidente, se comprometeu a agilizar o projeto de lei que cria acessibilidade aos portadores de necessidades especiais, a editar nova lei de queimada de cana. Políticos se comprometeram a auxiliar o Delegado Regional a buscar viaturas, material humano e estrutura predial para nova Delegacia. As drogas serão combatidas com auxílio de todos os poderes, seja com investimento do Executivo, seja com entidades particulares como Servos Bom Pastor. A saúde será totalmente reavaliada pelo Executivo, incluindo a instalação de ponto eletrônico. E o transporte público será licitado peio Executivo com fixação no edital de preço inicial de R$ 1,10 de passagem (economia de 13 reais por mês e R$ 156,00 por ano aos passageiros, já que reduz de 1,75 atuais para 1,10). Reuniremos em junho de 2010 para avaliar o que evoluiu neste ínterim. Ora, como não ser otimista com tantas pessoas buscando fazer sua parte?
O que o sr. acha da Expoagro?
Em termos turísticos é a festa que mais gera renda na cidade. Bares chegam a receber até 20.000 reais para colocar propagandas de cervejas. Hotéis ficam cheios. Restaurantes idem. A economia circula em geral, seja no comércio ou mesmo no agronegócio. A criminalidade é baixa considerando a estrutura de segurança e a potência do evento. E é justamente nesta festa popular que algo novo pode ser criado. Por exemplo, o “dia da família”, ou seja, uma forma de dentro da festa trazer pessoas que não gostam de shows escolhidos e sim de shows religiosos, palestras educativas, arrecadações para entidades locais etc. O eficiente gestor desta festa, Exmo. Dr. Mário Guilherme Perocco Ribeiro do Vale, conhecido Maé, por exemplo, arrecada fundos para a pobreza local e reverte a festa, também, aos necessitados, a exemplo dos fundos, também, para o Hospital do Câncer de Barretos, além de doações locais. Cumprimento Maé e o Dr. Carlos Paulino, também, “‘pela ideia de trazer o aeroporto para Guaxupé, quando do encontro do Vice-Governador, além de Maé trazer benefícios à Santa Casa. Assim, existem, além da Expoagro, pessoas que são comprometidas em auxiliar os necessitados e todas elas são bem vindas. O que não se pode é entrar num círculo vicioso de inveja de quem pratica obras, pois o círculo virtuoso reside em somar missionários. Quanto mais pessoas ajudando, mais benefícios. Quanto mais invejosos, mais desperdício.
Nas próximas edições do Correio Sudoeste, o promotor Thales continuará respondendo outras perguntas elaboradas pelo jornal.
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